gold and white

Adormecendo em meu leito frio de fantasias enrustidas, tive uma imagem. Como uma alucinação lisérgica e costumeira que precede os sonhos eu a vi sorrindo.

Ela dificilmente gargalhava, mas tinha um sorriso costumeiro que poderia significar desde uma intenção irônica até a destruição da humanidade.

Seus cabelos negros que adorava contornar ao redor das suas orelhas com as pontas dos meus dedos começaram a permear a intenção do meu sono. E, como por indução metafísica, os momentos que convivi com ela retornaram à mente, como ovelhas voltando ao cercado.

Lembrei de nossas noites, quando conseguíamos tornar o efeito do tempo inócuo, trocando palavras, silêncios e as carícias mais verdadeiras e genuínas possíveis.

Ouvíamos música, às vezes bebíamos. Houve dia quando o sol nos gritou que era hora de dormir. E houve luz quando ela adormeceu em meus braços, respirando sobre meu corpo a suave brisa de uma canção marítima.

Leve, acomodava-se nos meus braços e entrava em um molde perfeito, como se fôssemos argila ainda molhada.

O seu ventre contra o meu, os seus seios alimentando minha pele, as suas pernas recebendo a minha – divina intrusão. A perfeição que o artista ainda não encontrou, achava-se naquele instante.

Assim eu podia ficar acordado, acomodado na suavidade do momento, maravilhado com a beleza do ser com quem tinha o privilégio de brincar de amar.

E a noite fazia mais sentido que nunca e eu tentava compreender a imensidão do que aquilo significava para minha imperfeita individualidade.

E o tempo apenas ia e ia. Tamanho prazer por estar com aquela garota de cheiros deliciosos (que agora me arrepiam a alma só da tênue lembrança).

E havia vida no chuveiro quente daquele apartamento. Eram horas a fio, elevando a conta elétrica, eletrizando nossos corpos, sempre unidos em uníssono, como em um dedilhado suave, ensaboado em tons angelicais.

E eu, garoto pouco experimentado e tímido, encontrava ápices de prazer com a garota a quem eu pertencia, soprando cantos de paixão em seu ouvido sob velas coloridas que nos dilatava a sensação de estar pleno.

Eu realmente não conseguia admitir tamanha felicidade em meus bolsos. Perdido como criança na experimentação, cada dia que eu a via, sempre linda e viçosa, a andar pelo apartamento apenas com uma camisa branca, ecoando todos os seus pêlos, enchendo o ar de volúpia e boa intenção, podia sentir a minha pequenez diante do presente que havia caído dos céus em minhas mãos lisas de garoto pouco vivido.

Ela domava meus instintos, calava e me manipulava. Eu me calava e tentava manipulá-la. Porém o jogo já estava ganho e eu é que mantinha um orgulho infante e não aceitava a derrota, derrubando o rei. Se ela ficasse brava com meus comentários impertinentes ou com minhas atitudes de artista tentando ser bêbado niilista, em pouco tempo dava um jeito de eu me sentir culpado e desesperado com a possibilidade de perdê-la.

E como perder momentos como ela comendo pizza com seus óculos raros na cama, enquanto nus descobríamos à frente da televisão que éramos perfeitos como casal? Como fugir da simples matemática que meus dedos, a caminhar, precisam do perfeito encaixe com os dela? Como deixar de crer que aqueles olhos de roda gigante são a razão dos meus olhos existirem?

Há anos não a vejo. Ainda vivo me perdendo em sua imagem esfumaçada. Ali fui capaz de amar alguém. “Eu te amo” em minha boca para qualquer outra pessoa soaria como palavrão. Por isso, meu amor foi e sempre será exclusividade dela. Meu primeiro beijo, minha primeira e única garota. Posso e tento ser uma pessoa melhor, mas, sem pestanejar, meu melhor foi algo que ainda está com ela e que busco reencontrar.

3 comentários

Deixe uma resposta para miriamcarmignan Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s