Cotidianas – 2

E aí o táxi não chega apesar do agendamento com antecedência, você perde o ônibus e percebe que vai ter que sair correndo no meio da rua caso queira mesmo pegar o trem na hora certa. Vem então uma ciclista filha de uma rapariga na contramão, que não apenas te atropela e some sem socorrer, mas causa um problema, já que o impacto do pneu na sua perna RASGA a porcaria da sua calça. Calça esta que você parcelou em quatro vezes e semana que vem vence a segunda.

São 7:36 da manhã. O trem parte pontualmente 7:45. Você está no meio do caminho para o compromisso que você esperou o ano in-tei-ri-nho para acontecer. E entre você, a plataforma e o evento, há um rasgo absurdo perto das suas vergonhas, revelando mais do que deveria.

A maior estrela conhecida na Astronomia tem inacreditáveis 2.800.000.000 quilômetros de diâmetro. Suas dimensões colossais significam, trocando em miúdos, que um avião comercial, voando 900 quilômetros por hora, levaria pouco mais de 1100 anos para rodeá-la. Nosso lindo planeta azul, a nós tão caro, não passa de uma remela mal-lavada perto do tamanho de Vy Canis Majoris. 

Isto porque a Terra nem é lá tão pequena, já que suporta muitos de nós. De todas as raças, cores, passados e de futuros. Cada uma dessas pessoas no planeta abrigadas é um mundo, um infinito particular. Ao todo, somos mais de 7.5 bilhões de universos passeando por aqui.

Arrisco dividir essa quantidade toda de pessoas em três grandes grupos, que é para facilitar a conta: têm aquele povo da ‘gratidão’ – acreditam que o copo está sempre metade cheio (e em unicórnios também); têm o outro extremo do espectro – o pessoal pessimista-dramático (João Bidu jura de pé-junto que são todos ou cancerianos; quem sou eu para discordar?!), que pensa que o copo está sempre metade vazio e chove lá fora ao som de algum hit de sofrência da Marília Mendonça.  

Agora, existe também a turma do meio-termo: os que caem em pé depois da rasteira, que acham que na verdade, não importa muito o quanto de água resta no copo, e sim se rola ou não um refil de graça. 

Este último tipo: seja ele.

Discorro: o planeta Terra perde em tamanho para Netuno, Saturno, Júpiter. Perde em tamanho para o Sol. E também para centenas de milhares de outros planetas e estrelas, de outras galáxias que nem foram descobertas ainda.

E na nossa Terrinha, tão pequena e tão gigante, temos aos montes tantos de nós, únicos, especiais e tão entregues aos nossos próprios fantasmas e pensamentos e medos, a nossas próprias conquistas e alegrias e descobertas que a menos que aconteça algo muito perturbador ou barulhento, não somos capazes de perceber a realidade maluca que acontece ao nosso redor todos os minutos do dia. Ou as tristezas. Ou as bençãos. Ou as mazelas. Ou os milagres.

A positividade fake do primeiro grupo da divisão tendenciosa a qual me refiria anteriormente tantas vezes temperada pelo movimento hypster, pelo exponencial crescimento do crossfit como filosofia de vida, pelo retorno duvidoso do cropped dos anos 90 na moda, pelo uso desenfreado de um arco-íris de drogas sintéticas e uma tendência insistente em misturar abacate com tudo por causa de umas vitaminas saudáveis X, Y Z – escolhe, a partir de uma felicidade oca de boutique, de um eterno namastê irritante do caralho, ignorar o contexto de dores do mundo e viver uma realidade paralela olhando apenas para si mesmos e para sua própria bolha de segurança.

Interessante porém, que o segundo grupo da descrição, tão absolutamente diferente em sua tristeza cinza, não passa do outro lado da mesma moeda – focam tanto em seus próprios infortúnios que também tem os olhos ofuscados ao mundo em volta, e mal conseguem olhar para frente, presos em seus íntimos receios.

Jamais diria que a caravana do centrão é de uma estirpe diferenciada, iluminada e muito mais esperta. Não é não. Somos todos humanos, não dá para negar as origens.

Mas no barco da egotrip,  em que nossa espécie insiste em se segurar apesar da nossa pequenez perante ao cosmo e aos bilhões de anos de antes de nós e os que virão depois que virarmos pó, pelo menos os do meio do caminho aparentemente têm amarras sociais mais soltas, e conseguem aproveitar as lascas de alegria que tambem estão disponíveis  a todo momento para ambos os outros dois grupos, mas que estes não conseguem enxergar porque o umbigo deles, cada qual a seu modo, é grande e mais embaixo.

Tudo isso foi pra dizer que quando você é do centrão, meu consagrado, você vê vantagem nas pequenas coisas

Volto ao rasgo. Eu podia ter dado meia volta e desistido. Poderia ter ido com o rasgo e me sentir tão desconfortável a ponto de me endividar de novo comprando uma calça nova no meio do caminho.

Mas sendo uma representante ávida dos ‘copo-com-refil’, o que eu fiz foi aproveitar que estava de meia-calça preta por baixo (as inimigas dirão que era pra esconder a localizada e domar as dobrinhas, mas eu rebato dizendo que foi pra me proteger do frio) e dentro do trem mesmo acabei de esfolar os dois joelhos da calça com uma lixa de unha. E uma parte da perna esquerda.

O momento faça-você-mesmo no transporte publico rendeu um look gótico suave. Escondeu o rasgo. E eu paguei de linda memo. De bunita

O tanto de base, contorno das Kardashians e pó compacto que eu usei de manhã bloquearam qualquer vestígio de rubor sem-graça que eu poderia ter na cara naquele momento, com receio do que os outros passageiros pudessem pensar de mim. Desci do vagão assim que eu pude.

Fui para o compromisso, fiz carão, ergui a mão para fazer perguntas, fiz amigas no banheiro, tomei cafézinho com palestrante e ainda saí cheia de cartãozinho porque amores, paguei o evento com o único propósito de stalkear legitimamente esse povo todo no social media, para fins exclusivos de “networking”.

Conclusão: Entre estrelas gigantes, planetas super povoados, humanidade dividida simplóriamente em times como se fosse gincana de escola estadual – se você leu até aqui, eu agradeço, mas também me desculpo. Não tem nenhuma conclusão não. Só uma constatação tímida de que ninguém me questionou por eu estar meio que destoando do famigerado dress code corporativo. Apesar da voz da insegurança dentro da minha cabeça, me dizendo o contrario.

Eu só quis mesmo registrar que eu teria sido muito tonta se tivesse deixado um rasguinho mequetrefe que só é problema de branco da classe média arruinar meu dia. Ah, e outra coisa: ande sempre com uma lixa no bolso, porque vai que, né…

(Texto de Beatriz)

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