Cotidianas – 1

Aí naquele dia em que ela acorda atrasada (‘esse corno deste despertador que não tocou a essa hora!’), não tem tempo de se maquiar, esquece de pegar o almoço na geladeira, perde a chave do carro dentro do labirinto que é aquela gaveta perigosa do armário e quando finalmente abre a porta, o cachorro, boladão porque perdeu a voltinha matinal hoje cedo (pelagem linda, cor de aveia em flocos), acha que este caos é triste e decide ali mesmo ajudar: para ele, a hora é agora de liberar umas endorfinas correndo por aí.

Escapa por entre as pernas dela e mira direto na primeira poça de lama da rua, se refestela igual pinto no lixo e finge demência enquanto ela corre atrás dele com a coleira na mão. Como se não bastasse o disparate da fugidinha, ainda invade o canteiro do vizinho aposentado da Marinha e come meia dúzia das begônias que floresceram ontem depois de seis longas semanas, antes de entrar correndo pela porta como se nada tivesse acontecido; ela liga o carro não sem antes apontar o dedo indicador com esmalte descascado pro cachorro, soltando um raivoso ‘na volta a gente vai ter uma conversa’.

‘Mas que trânsito é esse logo cedo…quem foi o corno que autorizou a prefeitura arrumar fiação eletrica de poste de luz a essa hora?’

Aquela batalha até que ela consegue estacionar o carro na única vaga livre, não sem antes uma discussão gestual bastante intensa, de causar rubor em freiras carmelitas mesmo sem que uma palavra pudesse ser ouvida (o som foi abafado pelos vidros fechados do veículo) com um motorista de uma van com evidente sobrepeso e uma necessidade gritante de uma plástica na papada (o motorista, nao a van).

‘Quem é o corno que acha que pode tesourar a frente do meu carro a essa hora?’

A vaga fica longe da entrada tal qual uma meia-maratona, o salto alto equilibrando em passos de marcha olímpica papéis importantes, recibo do estacionamento, maleta, casaco, bolsa, sombrinha, um pacote de bolacha maizena porque é o que tem pra hoje, o presente do amigo-secreto, uma sacola com uma fantasia felpuda de Pikachu pro colega do Financeiro que pediu emprestado (melhor não questionar) e celular sem bateria.

Ela finalmente chega no trabalho meio atarantada. E mais molhada do que tampa de cuscuzeira, já que a chuva de vento arrebentou a sombrinha no meio do caminho. O café da garrafa térmica da copa acabou tem uns dez minutos – ‘como assim não tem café?’

‘Quem é o corno que não repõe o café na garrafa depois de beber tudo a essa hora?’

Telefone que não pára, escritório lotado, decidiram pedir pro pessoal da limpeza passar aspirador no carpete bem agora. ‘Uma escola de samba é mais silenciosa que este lugar, impressionante.’

‘Minha gente, quem é o corno que assina os turnos da faxina a essa hora?’’

Aquela planilha sexy, delicinha, multi-colorida, cheia de fórmulas badass que ela passou a semana toda criando, e que contém os dados que ela mais precisa está trancada – ‘quem foi o corno que mudou a senha essa hora?’

E derruba água na blusa branca minutos antes de uma reunião com o chefe do chefe dela. Sem planilha, sem outra camisa para colocar por cima, no dia de fechamento de relatório para a sede.

Aí no fim do dia, ela cansadona no melhor estilo queria estar morta, lembra que o vidraceiro ficou de dar uma passada quando ela chegasse em casa, por volta de 19:30.

Cogita desmarcar, afinal ‘quem é o corno que combina pra fazer serviço essa hora?’, mas ele é bom e vai ser duro achar outro dia. A cabeça dela anda pesada por causa da enxaqueca, mas pelo menos o vidraceiro esta esperando quando ela chega. E ele salta do carro dele todo sorridente.  ‘Alguém me explica, quem é o corno que sorri a essa hora?’

Ela indica a janela que precisa de reparos. O cachorro – agora preto por causa da aventura da manhã – segue o moço, e faceiro, faz logo amizade. Senta do lado dele enquanto ele se abaixa para iniciar o trabalho. Ela fica por perto, não vê a hora que ele acabe para que ela possa finalmente se arrastar escada acima para um banho fervendo.

Dizem que todos nós temos uma criança interior. Ela não. Ela tem uma idosa interior, que gosta de ganhar pijamas de flanela, está sempre procurando lugar para sentar, fala umas verdades inapropriadas e vai dormir as 21:00. ‘No meio da semana, quem é o corno que consegue se manter acordado a essa hora?’

Conversa vai, conversa vem, ele termina o serviço. Como manda a boa educação, ela oferece uma bebida quente para rebater a friagem de Fevereiro aqui neste país em que a temperatura média no começo do ano é tão fria que se tem o costume de gelar a cerveja apenas deixando as latas no sereno por uns minutos.

‘Chá ou conhaque? Tenho os dois!’

Ele afaga o cachorro e já guardando as ferramentas na mochila, pergunta assim, displicentemente, sem olhá-la nos olhos: “tentei adivinhar de onde é o seu sotaque, mas não consegui. O sobrenome parece espanhol, mas você não fala “inglês-anasalado”.

Quando ela diz, com a voz cansada, que veio do Brasil (‘Conhece? América do Sul, Copacabana, Neymar?’), o rosto enrugado daquele senhor se ilumina tal qual criança quando aprende a andar de bicicleta.

“Menina, eu sou músico nas horas vagas e há mais de vinte anos eu toco violino. Música é a minha paixão; você conhece um tal de Villa-Lobos? Ele é o meu maior ídolo e o maior sonho da minha vida é um dia ter condições de conhecer o seu país e assistir uma apresentação sinfônica com as obras dele!”

E lá se vão uns bons quarenta minutos, entre um gole e outro de chá (para ele) e conhaque (para ela), de uma aula grátis e linda de música e de sensibilidade no meio da cozinha, num país estrangeiro gelado, depois de um dia particularmente desafiador, entre um vidraceiro inglês e uma brasileira que conhece nada da cultura do próprio país.

Ter a rotina sacudida numa quinta-feira de corno é algo que chega pra todos vez ou outra, mas acredite: nem sempre a cornice vence. Pelo menos não hoje. Nem mesmo a essa hora.

(Texto de Beatriz)

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