50 tons de My Dear (Beatriz)

ocean(Texto de Beatriz)

Tarefa bem puxada para uma sexta-feira de manhã: ir pro funeral da Sue, a minha sogra. Ouvi inúmeras vezes hoje das boas almas que apareceram no enterro pra despedida que ela perdeu a batalha contra o câncer. Polidamente, discordo. O câncer morreu no minuto em que ela morreu, quase como num empate técnico. Claro que existe um infortúnio sem fim de ter uma doença diagnosticada numa fase já irreversível e a sensação horrível de mãos atadas que paira na cabeça de quem acompanhou tudo de perto. Mas o câncer não venceu não.

A Sue era uma sogra sussa. Enquanto minha família inteira ítalo-brasileira-sangue-latino-stress-pouco-é-bobagem ficou mais louca que o Batman quando eu falei que ia largar mão de tudo pra viver de brisa com um gringo X que ninguém nem conhecia, ela, ao contrário, quis se aproximar de mim. Tinha mais curiosidade do que medo desse relacionamento exótico entre duas culturas tão diferentes, e ela, tão absolutamente europeia, quebrou o protocolo e se despediu de mim em nosso primeiro encontro com os olhos marejados. Me deu um abraço tão apertado que – acredito eu – poucos na vida receberam dela um igual.

A Sue tinha, assim como eu, uma obsessão por tudo que reluz ao sol; sejam jóias, sejam carros novos, seja piso de porcelanato ou rejuntes de azulejos de banheiro depois daquele faxinão daora. A Sue era limpa, limpíssima. E cuidava de tudo e de todos ao redor dela com uma profilaxia estoica. E a tal da limpeza – e retidão – fazia parte da personalidade dela. A mesma mão que afagava podia dar uma patada de perder o rumo se necessário fosse. Ou seja, não havia nenhuma entrelinha com ela, tudo era preto-no-branco. Colecionou desafetos com tanta franqueza, mas soube cultivar os que ainda acreditam que a sinceridade é uma virtude.

A Sue nunca se intrometia na vida alheia. Preferia os grandes dramas das óperas e dos Shakespeares à pequenez da vida cotidiana. Era como se ela ficasse meio que acima das picuinhas, porque sabiamente ela aprendeu cedo que não vale a pena queimar pestana com a dor de barriga dos outros. Ser filtro, e não esponja – foi assim que ela fez. A Sue era na dela. Muita gente entendeu errado e interpretou como timidez. Eu acho que ela era só esperta pra dedéu, porque sabia que o espaço dela era infinitamente mais interessante. A Sue sempre foi generosa. Eu que o diga, porque senti na pele aquela paciência de monge tibetano que ela teve ao ajudar a brasileira aqui recém-chegada morta de frio que falava aquele inglês marromeno com sotaque russo.

Sem um pingo de pieguice religiosa, a Sue deu a cara a tapa ao cuidar de quem deu as costas pra ela por uma vida toda. Mas cuidou também de quem daria um dedo mindinho por ela. Cuidou de quem era neutro, cuidou de quem nem merecia e de quem nem sabia que estava sendo cuidado. E manteve o equilíbrio – a duras penas, mas manteve. Fez do jeito dela, e tudo meio que se acertou no quebra-cabeça maluco que são as relações humanas.

A Sue conheceu tudo que é canto desse mundão velho sem porteira. Viu tudo que é cultura, sotaque, por-do-sol, costume, fuso-horário. Mas faça chuva ou faça sol, ela não dispensava a boa e velha pratada de macarrão. Nem aquele café sem açúcar finaleira da noite indo na contramão inglesa do chá das cinco – outro ponto no qual a gente ornava de acordo: café das Minas Gerais estava no top 5 dela e mesmo quando a gente ficava sem trocar uma palavra, só uns olhares vagos porque ambos pensamentos (meu e dela) estavam longe, tomar café juntas era sempre um momento só nosso, e a gente se entendia muito bem no nosso silêncio.

A Sue era prestativa, detalhista, falava apenas o necessário, mas curtia ouvir uma boa história. E porra, como eu e meu sogro falamos. Ela sorria com o olhar ouvindo nós dois por horas a fio. E tinha um carinho infinito pelos meus pais e achava lindo o tanto que a gente falava sem parar pra respirar quando estávamos todos juntos (mesmo sem ela entender uma palavra de português).

A Sue deixou um filho. Fez de um baby boy ruivinho e sardento um adulto gentil, engraçado, determinado; sensível também, que foge completamente ao estereótipo de macho-alfa com 30 e poucos anos e do famigerado ditado popular, porque ele, ao contrário, dá um boi pra entrar numa briga, e uma boiada inteira pra sair dela – em tempos de racismo, xenofobia e violência, criar um ser humano que ainda acredita no amor é a melhor coisa que alguém pode deixar de herança pro mundo.

A Sue sofreu muito no fim. Dores físicas, dores psíquicas. Mas não reclamou. Não queria a gente fazendo tempestade em copo d´água não. Continuou vaidosa, continuou celebrando cada vitoria que aparecia, afinal, my dear, todo dia é dia de Gucci e Prada, mesmo no leito do hospital, mas aí os sedativos fizeram efeito e a luzinha interior foi se apagando devagar.

A Sue vivia o hoje. Dava uns migué na psicopatologia da vida cotidiana e sempre dava um jeitinho de fugir. E ela curtia dar uma escapada, ter uma mini-aventura, progredir. Aquariana nata, só andava pra frente. E a Sue fazia do mais simples evento uma comemoração. Botava um sorriso no rosto e lá ia ela, feliz da vida comemorar sei lá o que. E sempre com vinho tinto, já que champanhe é francês demais e aqui não só é time Inglaterra, como “a gente nem gosta tanto assim dos primos francófonos”.

Por isso, quando eu falo que rolou empate técnico, é a isso que estou me referindo: o câncer é um sistema burro demais pra sobreviver, ele morre junto com a pessoa. Mas o legado que a pessoa deixa pro mundo e o tanto que essa alma toca a sua e a sua história pessoal, ahh meu amigo, isso sim é esperteza. A Sue vive agora na minha memória como uma nuvem linda, loira, sorridente, uma Barbie cinquentona chiquérrima, e super de boa, que só quis o meu bem ao lado do filho dela.

E é por isso que hoje eu vesti meu melhor vestido e tomei uma taça do melhor vinho como forma de homenagem: a Sue fica pra sempre nas minhas recordações, e esse privilégio, de permanecer vivo nos que ficam, meu amor, é só pros fortes. E este bem que podia ser o sobrenome dela, pode acreditar.

Descanse em paz, sogrona.

Beatriz!

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